
Em tempos como os que vivemos, onde a ganância, a inveja, o egoísmo, a discórdia e o desamor estão tão presentes nos corações dos homens, pensei em denunciar esses sentimentos tão repugnantes que somos capazes de manifestar.
Mas não quero falar desses horrendos frutos da falta de humanidade do ser humano de uma forma tão dura, tão amarga quanto o tema sugere. Por isso resolvi relatar aqui uma fábula da jornalista e cronista ludovicense Gisele Brasil, publicada no livro “As melhores crônicas do claraonline”.
Leiam com atenção e reflitam:
“Era uma vez um mundo de formigas. Cada espécie tinha o seu ninho, cada espécie passava o dia trabalhando, sempre enfileirada. Cada população tinha sua rainha, todas com suas características peculiares, sempre tendo como principal objetivo mandar. Com o passar do tempo, cada formigueiro foi crescendo, uns mais que os outros, o que acabou atraindo a inveja das outras populações.
- Você viu como o formigueiro das Carnívoras está bonito? – comentou uma formiga-soldado para a companheira, ambas formigas Saúvas.
- Vi, sim. Fico imaginando como será lá dentro.
O interior de cada formigueiro, aliás, era sagrado. Nenhuma formiga de outro ninho tinha permissão de entrar na casa alheia. O viveiro das Saúvas era o maior de todos, o que as fazia se encherem de orgulho, e ver que um outro formigueiro podia ameaçar a grandeza delas as deixava aflitas.
- Rainha, Vossa Majestade já viu como o formigueiro das Carnívoras está crescendo e ficando bonito? – perguntou uma Saúva operária.
- Não vi, mas já ouvi. Creio que elas estão querendo ser mais belas do que nós – deduziu a rainha.
A rainha estava muito preocupada com o crescimento das Carnívoras e, então bolou um plano:
- Vamos nos aliar a elas. Quero que todas as Saúvas operárias façam amizade com as Carnívoras, para que possam conhecer o interior do viveiro.
Então o plano foi posto em ação. As operárias se aproximaram das soldados Carnívoras.
- Bom dia, soldado. Dia nublado hoje, hein?
- É – respondeu desconfiada a formiga-soldado.
- Mas vocês com certeza não temem a tempestade. O formigueiro de vocês está cada dia maior e bem protegido – insistiu a Saúva.
- Muito obrigado – respondeu a formiga-soldado, ainda desconfiada.
E todos os dias as Saúvas tentavam se aproximar das Carnívoras, mas era sempre em vão. Então, uma das operárias Saúvas foi falar com a rainha.
- Majestade, as Carnívoras estão oferecendo resistência à nossa amizade. O que fazer?
- A única saída é aumentarmos nosso formigueiro para mostrar que somos melhores do que elas – planejou a rainha.
- Mas isso vai demorar, Majestade. O nosso exército de operárias não é muito numeroso.
- Não se nós pegarmos aquelas formigas Escravas para trabalharem para nós, formiga operária.
Imediatamente as Saúvas-soldados renderam as formigas Escravas que moravam em um outro formigueiro e as obrigaram a ajudá-las a aumentar o sauveiro. E elas trabalhavam muito, até que um dia seis delas conseguiram escapar.
- Nossa! Como estou cansada! – reclamou uma delas.
- Precisamos fazer alguma coisa – disse outra Escrava.
Decidiram, então, pedir ajuda às Carnívoras.
- Oi, Carnívoras-soldado. Queremos falar com sua rainha.
- Vocês não têm permissão par entrar em nosso formigueiro, formigas Escravas.
- Mas é do interesse dela. As Saúvas estão querendo destruir o poder de vocês.
A formiga-soldado entrou no formigueiro, explicou o acontecido para a sua rainha, que deixou as Escravas entrarem.
- Rainha Carnívora, as Saúvas estão com inveja do seu formigueiro e aprisionaram centenas de nossas companheiras para construir um viveiro melhor que o de vocês – explicou uma das escravas.
- Não tem problema, formiguinha. Nós não nos importamos de não sermos as melhores – confessou a rainha.
As formigas Escravas ficaram decepcionadas. Elas sabiam que não conseguiriam se vingar sozinhas das Saúvas. Até que uma delas inventou uma história para a rainha.
- Mas, Majestade, o plano das Saúvas é construir um formigueiro tão grande que vai tomar conta do espaço de vocês.
A rainha se desesperou e decidiu a ajudar as Escravas. Afinal, assim estaria protegendo seu reino. Mandou as operárias Carnívoras entregarem três larvas de borboletas cascudas que estavam aprisionadas no viveiro, e disse.
- Vocês, Escravas, Levem essas larvas par dentro do sauveiro. Depois fujam com suas companheiras. Essas larvas comerão todas as larvas filhas da Saúva rainha.
As Escravas forma felizes carregando as três larvas de borboletas cascudas que eram grandes e de casco duro em cima, o que impossibilitava que as Saúvas conseguissem atacar o corpo da larva.
O plano deu certo. Muitos filhotes de Saúvas morreram. Até algumas Escravas morreram no combate por não conseguirem fugir. A Saúva-rainha escapou e sua ira aumentou. Jurou se vingar das formigas Carnívoras e mandou as Saúvas-soldados invadirem o formigueiro rival. Elas invadiram, mataram e morreram até se cansarem.
Hoje os dois formigueiros foram extintos e muitas das sobreviventes trabalham para as formigas Escravas que ficaram com o maior formigueiro do lugar.
Moral da história: moral? E você ainda consegue ver algum ato moral nessa história?”
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